#3

por desandarilho

sobre a escrivaninha, papéis amassados e encardidos, amontoados em uma sequência há tempos esquecida. o telefone silenciado, e incontáveis marcas de copos e canecas que guardam o cheiro de café sobre o surrado tampo do móvel. no cinzeiro, uma coleção de de guimbas e o odor impregnado de névoa. a clemente e amarelada luminária se combina ao poste, lançando bastardos raios pela vidraça embaçada. nas gavetas abertas, clipes e grampos e canetas e cartões e cadernetas se arranjam em desordem. e o gravador, escrivão de sons e contador de histórias. garrafas secas e espalhadas pelo chão guardam o mesmo cheiro que os poros exalam, misturados ao suor. das paredes desbotadas, quadros pendem descumprindo a função de enfeite. e um mural de rostos falsos, de beleza e felicidade desmascarados pelos tempos idos. lembretes, recados e anotações, já não mais servos de uma memória carcomida. nas prateleiras da velha estante, volumes toscamente dispostos acumulam o pó do tempo, dividindo lugar com arranhados e esquecidos vinis. no ponto mais alto, a ultrapassada câmera, olhos gastos de vistos e imprevistos. revistas e jornais se lançam por toda a cena, despejando palavras vazias e recortes de verdade, calando vozes nas ruas. no centro, absoluta, a máquina de escrever e o texto incompleto, ícones do que há muito se havia dito e de um depois jamais vindo. no canto, quase oculto, jaz o corpo ressequido. a face oleosa e o cabelo desgrenhado, o desmazelo do que não espera. sapatos de couro corroído e solas de muitos caminhos. o traje puído tom pastel, camuflagem de descrição na massa. na altura do peito que um dia guardara lembranças e visões de porvir, um pedaço de metal se aloja. e no ar, o cheiro de sangue, pólvora e interrogações.

Anúncios